só porque eu anunciei que ia falar de alimentação e agricultura, vou falar sobre uma outra coisa, sem aparente relação direta com o tema. como se constrói uma tenda mongol, porque se constrói isso fora da mongólia ou explicando a questão da “habitat leve”. [ah, como eu não sou uma super tradutora, vou colocar umas palavras lá em nota de rodapé pro povo que quiser da uma confirmada se eu nao to falando besteira]
pois bem, pra quem nao sabe ainda do que eu to falando, vamo ilustrar :
vista por dentro :
Ou uma versão gourmet dos airbnb da vida:
pois bem, a história é a seguinte. por questões da vida e mais especificamente vida-mais-covid, eu me encontro nessa semi-comunidade no sul da França, 4 horas de carro de onde eu moro. outra paisagem, outra gente, outro tudo. e porque era começo da primavera, eu tenho direito a participar do ritual da montagem da tenda, que acontece todos os anos assim que começa a esquentar. e se desmonta todos anos assim que começa a esfriar, o que faz uma casa-desmontável-temporária. eu vou ser sincera, eu teria preguiça, mas aqui o povo faz isso todo ano e é um evento super esperado.
super esperado porque ele marca algo novo, uma outra forma de organização da vida social: é o calor que chega e convida todo mundo a sair das suas grotas e vir morar em um espaço mais em relação com o ambiente circundante. porque na yourte, como eles chamam aqui, a única coisa que te separa do lado de fora são alguns paus cortados e amarrados, alguns cobertores pendurados e um tecido por cima. nao visualizou ainda? pera, então vamos realmente ao que interessa, a montagem dessa tenda.
foi meio rapido né? ainda mais pensando que isso durou toda a manhã e contou com 6 pessoas trampando o tempo todo. tudo começa com o piso de madeira (que é a única coisa fixa e que nao sai todos os anos). no chão está a estrutura da porta e o que vai ser o muro, vários paus amarrados por cordinhas fazendo um x. mais ou menos isso:
hora de montar o teto: cada uma dessas varas vai ser ligada à coroa central, se apoiando no alto da treliça.
e com varias varetas, voilà, temos um teto!
hora de cobrir isso tudo: um véu fino, e depois os cobertores amarrados na estrutura da parede pra fazer a isolação térmica contra o frio e o calor
com os isolantes
mais isolante no teto:
agora é a fase final: colocar o tecido que vai por cima, que é impermeável; passar umas cordas em volta e dar uma atochada. fixar cordas entre o teto e o chão, e já estamos no final… parece até fácil, né? mas no processo de instalação, são vários os questionamentos e daí a necessidade de ter um “mestre de obras”, que orquestra todo mundo, vê se tá tudo certo, ensina a fazer os nós, vê se tem que puxar, soltar, e tantos outros detalhes. a tenda desse ano, por exemplo, ficou meio pequena: dá pra ver na foto, a parte de baixo é bem menor que em cima!
e porque estamos falando de yourte, as tendas mongois?
porque elas estão intimamente ligadas à um estilo de vida rural de uma camada da população que são chamados os neo-rurais. desde os anos 60, intimamente ligado aos movimentos de maio de 68, muitos franceses foram buscar na zona rural os ideais de liberdade e reconexão com suas tradições; juntaram nesse caldo novas reivindicações sociais e sobretudo ligadas ao meio ambiente, como a produção de alimentos orgânicos. e na época, podem acreditar, não era nada hipster o que eles estavam fazendo: em pleno movimento de êxodo rural, eles iam para os lugares mais perdidos da França onde os terrenos tinham se tornado ridiculamente baratos e eles podiam reformas casas de pedras em ruínas para viver uma vida completamente ligada com a natureza. como eles eram vistos? hippies, lunáticos, idealistas, fanáticos.
Cinquenta anos se passaram e cá estamos montando uma tenda mongol. porque esses franceses urbanos foram pra terra levando também suas experiências de viagens, seus encontros com as culturas e tradições rurais de outros países. porque eles não tinham onde morar também, porque reformar casas de pedras em ruínas de 500 anos não é uma coisa que se faz tão rápido assim. e nesse tempo, ainda mais com as crianças que eles tinham e foram fazendo pelo caminho, tinha que se morar em algum lugar. e se tem que ser prático, fácil de fabricar, fácil de levar pra outro lugar, e barato, a yourte é perfeita.
hoje a história da yourte mudou, porque o campo também mudou. a política agrícola comum colocou a agricultura no centro das atenções da união europeia, criou coesão nacional e deu dinheiro para os agricultores se modernizarem e alimentarem uma europa que precisava se reconstruir depois de duas guerras. o campo deixou de ser visto como um lugar rude e pobre, e virou um espaço de descobertas, viagens, e a promessa de uma vida calma em conexão com a natureza. e os hippies dos anos 70 trouxeram o alimento orgânico de vez dentro do debate, presente em todos os cantos da França. dizem alguns que participarem do movimento que eles falharam, porque a revolução verde que eles imaginavam com a produção de alimentos orgânicos nunca aconteceu: eles foram apenas absorvidos pelo capitalismo como um nicho de mercado. outros dizem que a revolução está justamente lá, porque hoje até o mercadinho da esquina tem produto orgânico para venda. ou seja, mais gente comprando, menos agrotóxicos na terra. duas visões de mundo?
a questão é que o campo hoje não é mais o mesmo que era antes, e a visão dos campesinos tradicionais também. eles meio que se deram conta que essa história de pessoas da cidade comprando terras baratas fazia com que tivesse muita gente de fora, e disso eles não gostam: ou se é daqui ou é estrangeiro. mesmo se você vem de 60 km daqui. tem que ter sete gerações de familiares no cemitério da cidade para ser um daqui, foi uma frase que um dia foi dita por um local. e também porque esse povo vem com umas ideias estranhas, umas demandas estranhas, e tudo mudou e já não era como era antes. então vamo segurar isso ai, vamos por uns limites.
atualmente, as yourtes viraram meio que inimigo número 1 no campo, porque elas dão essa possibilidade a qualquer um de fora chegar e se instalar em um terreno de um dia pro outro. então, como era de se esperar na França, eles decidiram regular esse negocio: tenda so pode ficar instalada 3 meses em um mesmo lugar, na época do verão (o que coincide também com a possibilidade de ao invés de morar, simplesmente botar pra alugar tendas luxo como aquela da foto lá no começo por uns 100€ a noite, o que dá uns 600 reais. nada mal não?). e pros hippies, alternativos, punks, anarquistas e qualquer outro malaventurado que insistir, a polícia pode vir desmontar ou você pode ter problemas no tribunal, pagar multas por dia, etc.
lá onde estava o prefeito da cidadezinha (inha inha, 600 habitantes) era mais gente boa e deixou que a gente instalasse por 6 meses, aproveitando toda a primavera e o verão. então não, ninguém mora lá, ela é apenas um espaço para acolher as pessoas de passagem pelo terreno durante a época que os dias são quentes e longos. em setembro vai precisar mobilizar novas pessoas pra desmontar e guardar tudo isso, esperando o ano seguinte quando a primavera chegar...


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